Tem uma frase que escuto com frequência quando uma mulher recebe as fotografias do parto:

“Como você tirou essa foto se nem estava ali?”

Às vezes, ela está olhando para o companheiro apoiando suas costas. Em outras, vê a expressão da equipe quando o bebê nasceu. Também acontece de descobrir um carinho, um sorriso ou um gesto que aconteceu enquanto ela estava de olhos fechados, completamente concentrada no próprio corpo.

Essa é uma das coisas que a fotografia de parto traz. Enquanto a mulher está concentrada em atravessar o nascimento, outras partes da história continuam acontecendo ao seu redor.

Depois de fotografar mais de 1.000 partos, aprendi que uma mulher pode se lembrar profundamente do que sentiu e, ainda assim, não ter visto metade do que aconteceu.

Aprendi também que o parto é um evento intenso, capaz de mexer com partes muito profundas da gente. Às vezes, a mulher sai tão atravessada pela experiência que não consegue se lembrar dos momentos bonitos que também aconteceram.

As imagens também mostram que o parto é intenso, sim. Mas não o tempo todo.

Casal sorrindo junto com o bebê logo após o nascimento em parto domiciliar

Quando recebem as fotos e os vídeos, muitas mulheres encontram os intervalos. Os sorrisos entre as contrações. Uma troca de olhares. Uma brincadeira. O carinho de quem estava por perto. A leveza que também mora nessa experiência, mesmo quando a primeira lembrança é da intensidade.

Meu nome é Clara Fernandes. Há mais de 10 anos acompanho nascimentos na Grande Florianópolis, como fotógrafa, como doula e como testemunha.

Nesse tempo, estive em partos rápidos, partos que atravessaram dias, mudanças de plano e cesáreas que se fizeram necessárias. Vi acompanhantes que sabiam exatamente o que fazer e outros que descobriram ali, no meio do parto, como poderiam ajudar.

Nessa caminhada, algumas coisas ficaram muito claras para mim e vou compartilhar com vocês nas próximas linhas.


Quase nada acontece exatamente como imaginamos

Começando pela data provável do parto que, na verdade, deveria se chamar: improvável.

Estudos indicam que apenas cerca de 4% dos bebês nascem exatamente na data estimada. Na prática, ela funciona mais como uma referência para acompanhar a gestação do que como uma data para esperar o nascimento.

O trabalho de parto pode começar às duas da tarde, mas, na minha experiência, muitas vezes começa durante a madrugada. Pode avançar rapidamente ou levar mais tempo do que todos esperavam. Pode começar, diminuir e voltar alguns dias depois.

No nosso imaginário, estamos acostumados com as novelas e os filmes, em que o parto acontece em três ou quatro cenas. Na vida real, parto pede tempo e paciência. São vários ajustes da mãe e do bebê até que tudo aconteça.

Quem trabalha com nascimento não tem uma agenda. Vive um plantão.

Clara Fernandes diante do espelho com câmera e equipamentos durante um plantão de fotografia de parto

Isso significa dormir com o telefone por perto, conferir o volume antes de deitar, manter os equipamentos preparados e organizar a vida para sair quando o chamado chegar. Significa também não saber se voltaremos em quatro horas ou apenas no dia seguinte.

Parto não tem horário comercial. Depois de mais de 1.000 nascimentos, continuo sem saber exatamente quando o próximo bebê vai chegar.

Faz parte do trabalho.

Esses dias escrevi com mais detalhes sobre o que existe por trás do preço e do plantão de uma fotógrafa de parto.

O plano de parto importa, mesmo quando o parto muda

Já vi muitos planos mudarem durante o trabalho de parto. Isso não significa que o plano foi inútil.

O plano de parto não é uma promessa de que tudo acontecerá exatamente como foi escrito. É uma ferramenta para que a gestante conheça suas possibilidades, reflita sobre suas preferências e converse sobre elas antes de chegar ao momento mais intenso do processo.

Quando o parto toma outro caminho, essa preparação ajuda a mulher e a família a compreender o que está acontecendo, fazer perguntas e participar das decisões.

É uma vaidade nossa imaginar que conseguimos controlar algo no nascimento.

Já acompanhei mulheres que desejavam uma cesárea, mas os planos do bebê eram outros e ele nasceu de parto vaginal antes da cirurgia. Também acompanhei mulheres que sonhavam em parir e precisaram recorrer ao plano B.

O nascimento nos coloca diante daquilo que não controlamos. Ter um plano é não chegar ao parto conhecendo suas possibilidades pela primeira vez. É não terceirizar todas as escolhas para a equipe sem compreender o que está sendo proposto e por quê.

A via de nascimento não resume a experiência

Não existe apenas uma forma de parir com força.

A gente acredita e trabalha pela assistência respeitosa, pela informação e pelo direito de a mulher participar das decisões sobre o próprio corpo. Também sabemos que, em algumas situações, uma cesárea se faz necessária.

A via de nascimento é uma parte importante da história, mas não consegue resumir tudo o que aconteceu.

Como essa mulher foi tratada? Ela recebeu informações claras? Teve espaço para fazer perguntas? Suas preferências foram consideradas? A equipe explicou por que determinada conduta estava sendo proposta? Ela se sentiu segura?

A forma como o processo é conduzido fará parte da memória.

Honrar todas as formas de nascer não significa dizer que todas as experiências são iguais. Significa olhar para cada história com honestidade, cuidado e respeito pelo que aquela mulher viveu.

Ninguém é menos mãe porque viveu uma cesárea. Também não é mais forte porque teve um parto vaginal sem analgesia.

Entender a nossa vulnerabilidade diante da vida talvez seja um dos maiores aprendizados que o nascimento pode nos trazer.

Ter pessoas que acreditam em você faz diferença

Uma mulher em trabalho de parto percebe o ambiente ao redor, mesmo quando está de olhos fechados e concentrada em atravessar uma contração.

Ela percebe quando as pessoas confiam no corpo dela. Percebe quando explicam o que está acontecendo, protegem o silêncio e esperam o tempo necessário antes de interferir.

Equipe apoiando uma mulher no instante do nascimento e no primeiro contato com o bebê

Também percebe quando precisa se defender.

É muito triste ver uma mulher gastando energia para ser ouvida, ou parindo com medo, justamente em um momento em que deveria se sentir segura, respeitada e amparada.

Por isso, quando existe a possibilidade de escolher a equipe, não basta observar currículos ou uma linda conta no Instagram. É importante entender como essas pessoas trabalham, como tomam decisões e como se comunicam quando algo foge do planejado.

Mas eu também sei que nem toda mulher pode contratar uma equipe particular ou escolher quem estará de plantão quando chegar à maternidade. Muitas mulheres terão seus filhos pelo SUS ou serão atendidas pela equipe disponível naquele momento.

Respeito não deveria ser um privilégio de quem tem dinheiro para escolher.

Mesmo quando não é possível escolher todos os profissionais, informação continua fazendo diferença. Conhecer a maternidade, entender seus direitos, preparar um plano de parto e conversar com o acompanhante são formas possíveis de chegar mais preparada e menos desamparada.

Existe também o trabalho das doulas.

A doula não substitui o acompanhante e não toma decisões pela mulher. Também não ocupa o lugar da equipe médica. Ela oferece presença contínua, apoio físico, informação e recursos para atravessar o trabalho de parto.

A presença de uma doula pode fazer diferença em qualquer cenário de parto. Em ambientes nos quais os profissionais da assistência precisam acompanhar várias mulheres ao mesmo tempo, esse apoio contínuo pode ser crucial.

O Ministério da Saúde reconhece a contribuição da doula como apoio físico, emocional e educativo durante a gestação, o parto e o pós-parto.

O acompanhante também nasce um pouco naquele dia

Muitos acompanhantes chegam com medo de não saber ajudar.

Alguns nunca estiveram perto de um parto. Outros têm receio de passar mal, atrapalhar ou não encontrar as palavras certas. Mas, quando o trabalho de parto começa, quase sempre descobrem uma maneira própria de estar presentes.

Acompanhante sustentando uma mulher durante uma contração no trabalho de parto

Às vezes, ajudar é oferecer água. É sustentar o corpo durante uma contração, fazer uma massagem ou buscar uma toalha.

Muitas vezes, é apenas sustentar o silêncio com presença e confiança.

Já fotografei mãos firmes e mãos tremendo. Já vi pessoas que chegaram inseguras se tornarem o ponto de apoio de que aquela mulher precisava.

Depois, quando a família recebe as fotos e os vídeos, é comum a mulher descobrir coisas que não tinha percebido.

“Eu nem sabia que ele estava fazendo isso por mim.”

Sim, ela estava ocupada demais vivendo um momento que transforma a vida inteira.

A mulher entra em outro estado de presença

Durante o trabalho de parto, a percepção do tempo muda.

Uma hora pode parecer dez minutos. Dez minutos podem parecer uma hora. A mulher pode não perceber quem entrou na sala, o que foi conversado ao fundo ou quantas vezes mudou de posição.

Mulher concentrada e recebendo apoio da equipe durante o trabalho de parto

O corpo exige presença. A atenção se volta para dentro, para a respiração, para as sensações e para o intervalo entre uma contração e outra.

Por isso, a lembrança do parto pode chegar em fragmentos.

Uma voz. Uma sensação. Uma frase. Flashes de memória.

A fotografia ajuda a ligar esses fragmentos.

A fotografia de parto mostra o que aconteceu enquanto você estava parindo

Uma fotografia de parto não serve apenas para mostrar como o bebê nasceu.

Ela pode revelar o carinho do acompanhante enquanto a mulher estava de olhos fechados. A mão da doula ou da enfermeira apoiando suas costas. A expressão da equipe quando percebeu que o bebê estava chegando. A reação da família no primeiro choro.

Criança se aproximando do bebê enquanto a família acompanha o encontro ao redor da mãe

Também mostra detalhes pequenos que dificilmente permaneceriam na memória: a roupa escolhida para o bebê, a marca das mãos apertadas, o cabelo molhado, o relógio na parede e a maneira como ele se acomodou no colo pela primeira vez.

Mostra também os intervalos.

Os sorrisos. O descanso entre duas contrações. Uma conversa que aliviou a tensão. A alegria que apareceu antes mesmo de o trabalho terminar.

Essas imagens não substituem o que a mulher sentiu.

Elas mostram as outras partes da história que também estavam acontecendo.

Por que registrar o parto?

Porque a mulher não consegue acompanhar tudo o que acontece ao seu redor enquanto está concentrada em parir. A fotografia registra o apoio do acompanhante, o trabalho da equipe, os intervalos entre as contrações e os primeiros encontros da família.

Não é apenas um registro de como o bebê nasceu. É uma forma de ajudar a mulher a compreender e revisitar a própria experiência.

Uma fotógrafa de parto não precisa ser invisível

Durante muito tempo, falou-se que a fotógrafa deveria ser invisível no parto.

Hoje, eu não acho que essa seja a melhor palavra.

Eu estou ali. A mulher sabe que estou ali. A equipe também.

O que aprendi nos últimos 10 anos é que uma boa fotógrafa precisa estar presente o bastante para se tornar imperceptível.

Clara Fernandes fotografando um parto de forma presente e sem interferir no ambiente

Isso exige mais do que saber operar uma câmera com pouca luz. É preciso entender o parto, reconhecer o ambiente e perceber quando uma aproximação pode incomodar.

É saber quando fotografar, quando recuar e quando abaixar a câmera.

Uma fotógrafa de parto não pede para a mulher olhar para a câmera durante uma contração. Não começa conversas sobre as próprias experiências nem traz assuntos que tirem a mulher do foco. Não interrompe o contato entre mãe e bebê. Não muda o ambiente para produzir uma imagem e não transforma intimidade em espetáculo.

Ela acompanha o que está acontecendo.

Cada mulher quer se lembrar de um jeito

Algumas mulheres querem ver todos os detalhes do nascimento. Outras preferem imagens mais reservadas. Algumas autorizam que uma pequena parte da história seja compartilhada. Muitas querem que tudo permaneça somente com a família.

Não existe uma escolha correta para todas.

Conversar sobre essas preferências antes do parto faz parte do trabalho. A fotógrafa precisa saber o que a mulher deseja registrar, o que não quer ver e quais limites precisam ser respeitados.

A autorização para publicar uma fotografia também não pode ser confundida com a contratação do serviço.

A história pertence primeiro à família.

Privacidade é cuidado.

Dar tempo para que a família receba, veja e viva as próprias imagens antes de qualquer publicação também é cuidado. E respeito.

A memória do parto muda com o tempo

Logo depois do nascimento, algumas lembranças estão muito vivas. Outras ainda parecem confusas.

Com o passar dos meses e dos anos, a intensidade muda. Certos detalhes desaparecem e outros ganham um significado que a mulher ainda não conseguia compreender naquele dia.

Uma imagem vista na primeira semana pode provocar uma reação. A mesma imagem, vista anos depois, pode revelar outra parte da história.

Talvez seja por isso que tantas mães voltem às fotografias.

Não apenas para lembrar como o bebê era pequeno, mas para se enxergar novamente naquele momento. Para compreender o que aconteceu, reconhecer o que viveu e, nos momentos desafiadores da vida, lembrar da força que existe dentro de si. E, um dia, mostrar ao filho como ele foi recebido.

Mãe sorrindo com o bebê no colo durante o primeiro encontro após o parto

O que mais de 1.000 partos me ensinaram

Depois de mais de 10 anos, continuo acreditando que não existe um roteiro capaz de prever um nascimento.

Existe uma história que continuará sendo compreendida muito depois de o parto terminar.

As fotografias não substituem o que você sentiu. Elas ajudam a organizar a sua história dentro de você.

Se você está grávida e começando a se preparar para o nascimento, este Diário pode ser o seu ponto de partida.